Não existem mais homens como Prestes
História | 10/09/2012

Ela viveu 40 anos ao lado do legendário Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes. Na clandestinidade, resistiu à cassação do registro do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1947, e do mandato do “velho”, então senador. Sem medo, enfrentou a ditadura civil e militar (1964-1985). Nos anos de chumbo, exilou-se na extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), pátria-mãe do socialismo. Aos 82 anos de idade, dona Maria Prestes lançou, em agosto, em Goiânia, o livro Meu Companheiro – 40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes. O ato foi promovido pelo PC do B em Goiás.

Bem-humorada, ela conta ter conhecido Prestes, em 1950. Três anos depois de o Partidão ter sido jogado na clandestinidade. Filha do comunista João Rodrigues Sobral, militante da sigla em Recife (PE) preso e condenado a 16 anos de cadeia por possuir supostas ideias subversivas, Maria Prestes passou a cuidar da casa e até da segurança do secretário-geral do PCB. Logo, logo construíram relacionamento. Prestes era viúvo.  Olga Benario havia sido assassinada nos campos de concentração da Alemanha nazista de Adolf Hitler no turbulento ano de 1942, durante a segunda guerra mundial.

Prestes tinha 54 anos. Maria, 20 anos. O casal teve sete filhos: Luiz Carlos, Antônio João, Rosa, Ermelinda, Mariana, Zóia e Iuri. Ela possuía dois filhos do primeiro casamento: Pedro e Paulo. “Bom pai, ele (Prestes) era um chefe de família exemplar, apesar das ausências provocadas pelas atividades políticas e revolucionárias”, revela. Comandante da coluna reformista que percorreu o Brasil nos anos 20 do século passado, ele também ajudava nos afazeres domésticos. Cortava abacaxi com mestria, relata. Mais: não deixava entrar uma garrafa de Coca-Cola, símbolo do imperialismo, em sua casa.

Maria Prestes conta que, conservador, Prestes, mesmo em casa, abotoava a camisa social até o pescoço. “Para impor respeito dentro do lar”, registra, sorrindo. O líder comunista não gostava de roupa – calça e camisa – xadrez. “Cor que ele identificava como vestimenta dos prisioneiros”, destaca.  Um trauma dos quase 10 anos da cadeia de Getúlio Vargas, então presidente da República, e do seu chefe da Polícia Política Filinto Müller. Prestes foi preso no ano de 1936, após o fracassado putsch militar do PCB de novembro de 1935. Ao fim do segundo conflito mundial e com a Anistia, ele saiu da prisão.

De hábitos “espartanos”, Prestes curtia uma salada, mas adorava guloseimas: tortas, biscoitos, bolo. “Ele comia pouco”, informa. Maria Prestes afirma que viveu seis anos na clandestinidade após o golpe de Estado civil e militar de 31 de março de 1964, no Brasil. Em abril de 1970 embarcou para o exílio: URSS. Lá morou nove anos. Sob a era Leonid Brejnev. “Devo ao povo russo a formação de meus filhos”, agradece. Fui muito feliz lá, insiste. O socialismo que eu vi, que vivenciei, é a solução para o mundo, fuzila. Em seus anos de exílio ela diz ter visitado e conhecido as experiências socialistas de 17 repúblicas.

“Lá o trabalhador possuía moradia, energia, alimentação, emprego e o povo vivia feliz”, discursa. Com a Lei de Anistia [de agosto de 1979], eles voltaram ao Brasil. O desembarque ocorreu no mês de outubro do mesmo ano. Tempos depois, Prestes deixou o PCB. Giocondo Dias virou o todo-poderoso secretário-geral da legenda da foice e do martelo. Mas os comunistas perderam espaço no campo das esquerdas. Um até então desconhecido metalúrgico do ABC paulista deflagrou o processo para construir um partido de trabalhadores, socialista e de massas. O seu nome era Luiz Inácio Lula da Silva.

Prestes abençoou o projeto de poder do “sapo barbudo”, nas eleições presidenciais de 1989. Ao lado de Leonel Brizola, o caudilho trabalhista, de Roberto Freire, então herdeiro do Partidão, e do tucano Mário Covas, um social-democrata moderado. O cavaleiro da esperança morreu em 1990, aos 92 anos de idade. Quase um século de vida. “Morreu defendendo o socialismo”. Ortodoxo.  Não viu o ex-operário Lula subir a rampa do Palácio do Planalto, em 2002, muito menos o escândalo do Mensalão, que abalou a República Petista em 2005 e manchou a imagem dos socialistas tupiniquins.

Maria Prestes diz que não é filiada a nenhum partido, afirma que os oito anos de gestão de Luiz Inácio Lula da Silva deixaram um gosto de que “mais podia ter sido feito”, e abençoa, hoje, a presidente da República, Dilma Rousseff.  Apesar da simpatia por sua gestão, cobra mais investimentos na área de Educação e quer pressa na realização da reforma agrária. Ela conta que o historiador Daniel Aarão Reis Filho, professor da Universidade Federal Fluminense, com quem encontrou-se dias atrás no Rio de Janeiro (RJ), entregará a uma editora, até dezembro de 2012, os originais da biografia de sua autoria do “velho”.

Dura, porém sem perder a ternura, ela espera que a Comissão da Verdade, nomeada por Dilma Rousseff, passe a limpo os anos de chumbo no Brasil e elucide os casos das torturas, mortes e desaparecimentos forçados políticos no País. Maria Prestes quer punição judicial para os responsáveis por violações dos direitos humanos ocorridas à época do regime civil e militar. “Não podem ficar impunes”. Ela é otimista com o futuro do Brasil. “Trata-se de um País muito rico. Sonho com um Brasil melhor para os brasileiros”. Mesma utopia de Prestes.

(Renato Dias)

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