Um bebê que recebe o diagnóstico de deficiência auditiva e começa o tratamento adequado até os seis meses de idade pode desenvolver linguagem muito próxima à de uma criança ouvinte. Por isso é importante a realização do chamado teste da orelhinha (triagem auditiva neonatal), um programa de avaliação da audição em recém-nascidos, indicado por instituições do mundo todo para diagnóstico precoce de perda auditiva.
De uma a três em cada mil crianças são surdas ou têm dificuldades com a audição desde o nascimento. Uma perda na capacidade auditiva, mesmo que pequena, impede a criança de receber adequadamente as informações sonoras necessárias para a aquisição da linguagem. Ou seja, a pessoa com dificuldade para ouvir, se não tratada, deixará de receber estímulos importantes para aprender a falar.
O grande problema é que a maioria dos diagnósticos de perda auditiva em crianças só acontece quando elas já têm três ou quatro anos, e o seu desenvolvimento emocional, cognitivo, social e de linguagem já está comprometido.
Teste do coraçãozinho
Geralmente, um a cada 130 bebês pode apresentar alterações cardíacas congênitas, como buracos entre as câmaras do coração e defeitos na válvula cardíaca. O teste do coraçãozinho ou oximetria de pulso pode evitar complicações e até salvar a vida de bebês que nascem com defeitos cardíacos. Mede-se, pelo pulso direito e por um dos pés, a concentração de oxigênio no sangue. O exame é indolor, dura menos de 5 minutos e detecta problemas no coração antes mesmo de aparecerem sintomas. Ainda não é previsto em lei, mas já há projetos de lei em municípios, como São Paulo, e em estados, como Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraná, para torná-lo obrigatório. Algumas doenças cardíacas não são apontadas pelo teste e os hospitais particulares que o oferecem podem indicar outros exames cardíacos para o recém-nascido.
Teste do quadril
Pode detectar doenças como a displasia do desenvolvimento do quadril, que provoca dor decorrente do encurtamento do membro e da osteoartrose precoce (destruição da cartilagem que reveste o osso). A estimativa é que um em cada mil bebês nasça com o quadril luxado (deslocamento de osso dentro da articulação) e cerca de dez em mil com o quadril subluxado (instável). É um exame clínico que se realiza flexionando as pernas do bebê. Ainda não é previsto em lei.
Além do teste da orelhinha, outros exames identificam ou previnem doenças em recém-nascidos
Teste do pezinho
É obrigatório para todos os bebês desde 1992 em todo o Brasil, mas somente em junho de 2001 o Sistema Único de Saúde (SUS) instituiu o Programa Nacional de Triagem Neonatal, que cobre a identificação de até quatro doenças (fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme e fibrose cística).
Nas secretarias municipais de Saúde pode-se obter o endereço das unidades de coleta. Os laboratórios privados realizam testes também para outras doenças, cabendo ao pediatra selecionar as que são de interesse. O teste pode avaliar se o bebê tem doenças metabólicas, genéticas e infecciosas, que poderão causar alterações no seu desenvolvimento neuropsicomotor. O exame é laboratorial, chamado também de triagem neonatal. A coleta do sangue é feita a partir de um furinho no calcanhar do bebê. Deve ser realizado na maternidade ou em laboratórios, depois de 48 horas que o bebê tiver começado a ingerir leite. Antes disso, o teste pode sofrer influência do metabolismo da mãe. O ideal é que o exame seja feito no máximo até o sétimo dia de vida.
Teste do pezinho ampliado
Há três versões ampliadas do teste do pezinho: a super, a ultra e a hiper, que permite identificar mais de 40 doenças antes que seus sintomas se manifestem. Não estão ainda disponíveis na rede pública de saúde, e são oferecidas, em geral com custo, por laboratórios e instituições como as associações dos pais e amigos dos excepcionais (Apaes). Projeto do então senador Eduardo Azeredo (PLS 312/05) visa tornar obrigatória a realização do teste do pezinho expandido pelo SUS. A proposta foi aprovada em fevereiro de 2011 pelo Senado, encontra-se atualmente na Comissão de Seguridade Social da Câmara e tem parecer favorável da relatora, deputada Teresa Surita (PMDB-RR).
Teste do olhinho
Também chamado de teste do reflexo vermelho, pode detectar e prevenir diversas patologias oculares como: retinopatia da prematuridade, catarata congênita, glaucoma, retinoblastoma, infecções e cegueira infantil. Se detectados precocemente, antes de se agravarem, de 60% a 80% dos problemas que levariam à cegueira ou a uma grave sequela visual podem ser prevenidos ou tratados. O exame deve ser realizado na primeira semana de vida, preferencialmente antes da alta da maternidade.
É realizado pela emissão de uma fonte de luz e a observação do reflexo que vem das pupilas. Quando a retina é atingida por essa luz, os olhos saudáveis refletem tons de vermelho, laranja ou amarelo. Quando há alguma alteração, o reflexo ou é esbranquiçado ou não pode ser percebido. No Brasil, o teste é obrigatório para bebês prematuros, porque 30% dos bebês que nascem com menos de 40 semanas ainda não têm os vasos sanguíneos da retina formados e a retinopatia da prematuridade pode ser curada se detectada a tempo. Em estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, no Distrito Federal e em cidades como Porto Alegre, o exame já foi instituído por lei para todos os bebês. Em vários outros estados e municípios tramitam projetos para torná-lo obrigatório e, no Congresso, o então senador Edison Lobão apresentou o PLS 510/07, que visa incluir a obrigatoriedade no Estatuto da Criança e do Adolescente. A proposta aguarda designação de relator na CCJ.
Desde junho de 2010, a cobertura do teste do olhinho por todos os planos de saúde é obrigatória por decisão da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O exame de fundo de olho, que também serve para detectar a catarata congênita, não é obrigatório, mas se os pais o pedirem logo depois do nascimento, pode ser feito pelo SUS.
Exame auditivo é rápido, indolor e não causa desconforto ao bebê
O teste da orelhinha é obrigatório e gratuito no Brasil inteiro desde 2 de agosto de 2010. São Paulo foi pioneira, ao instituir o exame pela Lei Municipal 3.028, de 2000. O exame é indolor, não machuca e não tem contraindicações.
A técnica utilizada é a de emissões otoacústicas evocadas. Um fone acoplado a um computador é colocado na orelha do bebê, emite sons de fraca intensidade e recolhe as respostas. Com duração de 3 a 10 minutos, pode ser realizado com o bebê dormindo naturalmente.
Se houver suspeita de deficiência, a criança será encaminhada para avaliações otológica e audiológica completas.
Há os chamados bebês de risco: os com histórico de surdez na família; os prematuros; os que passaram por intervenção em UTI por mais de 48 horas; os que têm infecção congênita (rubéola, sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus ou herpes) ou anormalidades craniofaciais (má formação da orelha, fissura lábio palatina); e os que fizeram uso de antibióticos ototóxicos e diuréticos no berçário. Mesmo a avaliação auditiva neonatal, obrigatória para os bebês de risco, é capaz de identificar apenas metade dos casos de perda auditiva. Por isso, a importância do teste da orelhinha, voltado a todos os bebês.
Campanha do Senado divulga que maternidades e hospitais são obrigados a realizar gratuitamente o teste da orelhinha
Em outubro do ano passado, o Senado lançou a campanha “Teste da Orelhinha: rápido, não dói e gratuito”. A iniciativa foi de Inácio Arruda (PCdoB-CE) ao constatar que, na época, segundo dados do Conselho Federal de Fonoaudiologia, apenas 10% dos hospitais do país realizavam esse exame, apesar de ele ser obrigatório desde agosto de 2010.
Inácio Arruda é autor do projeto que deu origem à lei que prevê a obrigatoriedade e a gratuidade do exame. O objetivo da campanha é divulgar a Lei 12.303/10 e ampliar o conhecimento da população sobre os benefícios da realização do exame. Para o senador, “se estados, municípios e profissionais se envolverem na divulgação da lei, com certeza as crianças com necessidades auditivas especiais poderão ter melhor qualidade de vida”.
Família deve prestar atenção à evolução da linguagem dos bebês
O resultado normal do teste da orelhinha não é segurança de que a audição da criança será normal para sempre. Outros problemas com o passar do tempo podem levar à perda auditiva. A família deve sempre verificar a reação da criança a estímulos e comunicar ao pediatra qualquer problema.
Do nascimento até os três meses, é normal que o bebê se assuste com sons altos (como batidas de palma fortes); entre três e seis meses, que ele já vire os olhos ou a cabeça em direção ao som e acalme-se com a voz da mãe; e entre seis meses e um ano, é esperado que reaja quando chamado pelo próprio nome e que ao menos balbucie alguns sons como “da da” ou “mã mã”. A criança que não reage a sons e não tenta emiti-los pode apresentar algum problema da audição.
Teste da orelhinha deve ser realizado na primeira semana de vida
Pela Lei 12.303/10, hospitais e maternidades são obrigados a realizar gratuitamente o teste da orelhinha em todos os recém-nascidos. Basta pedir. O ideal é que ele seja feito antes da alta hospitalar. Se a maternidade ou hospital não tiver realizado o teste, avise o pediatra ou profissional de saúde logo na primeira consulta. Ele deverá encaminhar o bebê para os locais competentes. Os hospitais conveniados ao SUS podem realizar os exames também nos bebês que nasceram em estabelecimentos particulares.
Caso o teste constate algum problema, é recomendável verificar se não se trata de “falso positivo”, que pode ocorrer, por exemplo, quando há algum líquido na orelha média ou mesmo cerúmen (“cera de ouvido”) no conduto auditivo.
Se novos exames confirmarem a perda auditiva, o bebê deverá ser acompanhado por otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos que vão iniciar o processo de reabilitação auditva. Para problemas alérgicos ou metabólicos, há tratamento medicamentoso. Se a causa da perda auditiva for um tumor, o tratamento é cirúrgico.
Nos casos em que não há cura, um aparelho auditivo (chamado prótese auditiva acústica ou de amplificação sonora individual) pode ser usado em bebês de poucos meses de idade e restaurar a audição. Outra possibilidade é o implante coclear (ou “ouvido biônico”), que contém pequenos eletrodos a serem colocados cirurgicamente em uma parte do ouvido interno. É preciso avaliação para saber se há indicação para o caso.
Campanha “Teste da Orelhinha: rápido, não dói e gratuito”:
www.senado.gov.br/testedaorelhinha
Conselho Federal de Fonoaudiologia:
http://www.fonoaudiologia.org.br/publicacoes/folder_orelhinha_grafica.pdf
Ministério da Saúde: www.saude.gov.br
Faculdade de Medicina da USP:
otorrinopediatrica.org.br - surdez.org.br - implantecoclear.org.br

Capa