Joseana Paganine-AS
Entre os novos procedimentos acrescidos à lista de assistência pré-natal, está o que detecta anemia falciforme, doença que afeta sobretudo a população negra. Controle de pressão arterial é outra medida essencial para evitar problemas sérios para mãe e bebê durante a gestação e o parto.
A saúde da mulher durante a gravidez é auxiliada por uma série de cuidados recebidos durante a fase pré-natal. Além de boa alimentação e hábitos saudáveis, ter acompanhamento médico e realizar os exames indicados são medidas necessárias para diminuir riscos ligados à gestação, que podem levar, inclusive, à morte da mãe e do bebê .
Atualmente, o Sistema Único de Saúde (SUS) dispõe de 24 exames pré-natais. Desses, 15 foram acrescidos à lista com a criação da Rede Cegonha, programa do Ministério da Saúde que qualifica a assistência à gestante no SUS. Em cerimônia de lançamento do programa em Belo Horizonte, na última quarta-feira, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que a Rede Cegonha contará com R$ 9,3 bilhões do orçamento do ministério para investimentos até 2014.
Entre as novidades, está um exame importante: a eletroforese de hemoglobina, que detecta a anemia falciforme, doença grave comum na população negra.
“Esperamos que esse exame ajude a reduzir os problemas relacionados à doença”, explicou a coordenadora nacional de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, Maria Esther Vilela.
A anemia falciforme é uma doença do sangue, hereditária e crônica, que, sem tratamento, pode levar à morte. Os sintomas incluem dores no corpo e úlceras na perna. Segundo o ministério, 3 mil bebês nascem com a doença todos os anos no país. Das crianças doentes que não são tratadas desde o nascimento, 80% morrem antes dos 5 anos. O mal também pode ser descoberto pelo teste do pezinho, exame laboratorial simples que detecta precocemente doenças metabólicas, genéticas ou infecciosas que podem causar lesões irreversíveis ao bebê.
Para ter acesso aos recursos do ministério para a realização dos novos exames pré-natais, inclusive o de anemia falciforme, estados e municípios podem fazer a adesão rápida ao Rede Cegonha. Até o momento, 23 estados e 1.685 municípios já aderiram.
Em outubro passado, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) realizou audiência pública com secretários de Saúde para discutir a necessidade da identificação precoce da anemia falciforme. A audiência foi realizada pelo presidente da comissão, senador Paulo Paim (PT-RS), com o objetivo de chamar a atenção para um grave problema de saúde pública que é, segundo ele, subestimado.
Mais exames
Durante a gravidez, a mulher também deve acompanhar a pressão arterial. Complicações decorrentes de hipertensão em gestantes são a maior causa de problemas na gravidez e no parto. Segundo dados do ministério, ocorrem em cerca de 10% das gestações.
A hipertensão gestacional também é a principal causa de mortalidade materna no Brasil. As outras são hemorragia, infecção pós-parto, doenças circulatórias e aborto.
A presença de doenças sexualmente transmissíveis também precisa ser investigada. A mulher e seu parceiro devem fazer os exames. Em caso de HIV, por exemplo, o uso de remédios reduz para 1% as chances de o bebê ser infectado. Sem a medicação, o risco sobe para 25%.
Ajuda para transporte pode incentivar realização de pré-natal
As gestantes que fazem pré-natal no SUS podem receber até R$ 50, como auxílio para deslocamento até o hospital ou o posto de saúde. Para isso, os municípios devem se cadastrar na Rede Cegonha e implantar o Sistema de Acompanhamento do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento, por meio do qual informarão mensalmente ao Ministério da Saúde o número de grávidas que receberão o benefício.
O ministério estima que, em 2012, 1 milhão de gestantes (mais de 40% das usuárias do SUS) devam receber o auxílio. Até 2013, a meta é alcançar 2,4 milhões de grávidas. A iniciativa foi elogiada pela senadora Ana Rita (PT-ES), vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos. Na avaliação dela, o benefício vai incentivar as gestantes a fazerem os exames pré-natais no SUS.
Cuidados devem começar antes da gestação
Além dos exames pré-natais, a mulher deve adotar precauções antes de engravidar, como se vacinar contra algumas doenças. A rede pública oferece a vacina dupla viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba. A rubéola, por exemplo, é uma doença infecciosa, sem grandes consequências para crianças e adultos, mas potencialmente grave em gestantes, pois pode causar malformação no feto.
O Ministério da Saúde também recomenda que a mulher tome comprimidos de ácido fólico três meses antes de engravidar. A intenção é evitar malformação da medula óssea e da meninge, membrana que reveste e protege parte do cérebro.
Quem deseja engravidar também precisa alimentar-se de forma saudável, evitando gorduras, produtos industrializados, bebidas alcoólicas e fumo. Deve tomar cuidado, no entanto, com alimentos crus, pois oferecem risco de contaminação por toxoplasma, parasita que pode causar aborto ou malformação no feto. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda não comer carnes cruas ou malpassadas e deixar hortaliças de molho em água clorada (veja Saiba Mais).
O ministério alerta ainda para o uso de produtos cosméticos. Cremes com ácido retinoico e vitamina A, por exemplo, devem ser evitados por quem está tentando engravidar. Escova progressiva, alisamentos e tinturas também devem ser evitados, pois contêm produtos tóxicos nas fórmulas.
Brasil precisa reduzir mortalidade materna
Apesar dos avanços, o Brasil não deve conseguir atingir a meta de redução da mortalidade materna estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). A previsão é da revista médica inglesa The Lancet, que lançou, em 2011, um número dedicado à saúde no Brasil.
A meta é que os países reduzam em 75%, até 2015, os índices de mortalidade materna apresentados em 1990. Em 20 anos, o índice brasileiro caiu quase pela metade, de 141 para 68 óbitos para cada 100 mil nascidos vivos. A meta é de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015. Embora a queda seja significativa, a revista inglesa afirma que a média anual brasileira de declínio é insuficiente para alcançar a meta.
O governo federal, entretanto, tem outra avaliação. Balanço de mortalidade materna em 2010, divulgado em fevereiro pelo Ministério da Saúde, mostrou que, em 2011, houve a maior redução de mortes dos últimos 10 anos, com queda de 19% em relação a 2010. A partir de agora, o ministério deve concentrar investimentos nas regiões Norte e Nordeste, onde a proporção de óbitos é maior.
Em audiência pública sobre os desafios para promoção da saúde da mulher, a senadora Ângela Portela (PT-RR) lembrou que a redução da mortalidade materna é justamente um dos objetivos da Rede Cegonha. Segundo ela, 930 mil gestantes foram atendidas entre março de 2011 e março de 2012. A audiência foi realizada pela Subcomissão Permanente em Defesa da Mulher, vinculada à CDH, para marcar a passagem do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.
Na avaliação de especialistas, porém, é preciso fazer mais do que ampliar o atendimento. A discriminação étnica e racial e a falta de conhecimento da diversidade cultural brasileira por parte dos profissionais de saúde são entraves à qualidade do pré-natal realizado no Brasil. Segundo a antropóloga Lia Zanotta, mulheres denunciam sofrer vários tipos de preconceito em hospitais.
“O combate ao preconceito é fundamental para melhorar o atendimento e alcançar a redução da mortalidade materna pretendida pela Rede Cegonha”, avaliou Lia.
A senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), em discurso realizado em Plenário sobre o assunto, afirmou que a redução da taxa de mortalidade materna é um dos maiores desafios dos sistemas de saúde brasileiro e mundial. Ela informou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o problema uma "epidemia silenciosa" que vitima mais de 500 mil mulheres anualmente em todo o planeta.

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