O “outro” ficha suja

As campanhas eleitorais estão perto de seu final, pois pouco mais de vinte dias nos separam da hora da votação e da escolha dos nomes de nossos futuros representantes em dois poderes constituídos. Até o presente momento pouco ou quase nada se conseguiu discernir em termos de propostas por parte dos pretendentes a cargos nos executivos estaduais e federal.

A disputa teve, até agora, muita discussão sobre uma lei aprovada às vésperas do início do processo eleitoral: a da Ficha Limpa. Por ela os candidatos com condenações anteriores a promulgação desta lei se tornaram inelegíveis. Muitos juristas condenaram uma proposta que retroage, isto é, que age contra delitos cometidos anteriormente a existência de uma lei. Se ela abre ou não um perigoso precedente é uma outra discussão. O fato é que está em vigor e já barrou várias candidaturas por todo o país. Ex-governadores e ex-prefeitos dedicam tempo nos tribunais em busca de salvação, mas a esta altura da disputa estão irremediavelmente comprometidas.

Aplausos foram ouvidos por todo o país como se a Lei da Ficha Limpa fosse um marco definitivo rumo a um processo eleitoral coberto de ética. A partir de agora a disputa seria feita apenas por pessoas idôneas. Ledo engano. O fato de ter barrado alguns candidatos não a credencia a tanto. Muitos candidatos possuidores de suspeitíssimas evoluções patrimoniais continuam a nos pedir o voto e permanecem longe das garras desta e de outras leis.

Um aspecto que quase não sofreu alteração foi o financeiro. O caixa dois continua existindo e com intensa força. Poucos são os candidatos que vão fazer suas campanhas com pagamentos feitos integralmente de forma legal. “Por dentro”, como se diz. O “por fora” vai continuar dominando apesar dos esforços da Receita Federal em aprimorar sua estrutura de informática e de investigação em conjunto com os estados.

Mas se nas campanhas pouca coisa mudou, algo vem evoluindo para pior. E é justamente do lado de quem hoje aplaude a existência da lei que barra os candidatos com problemas. Refiro-me ao eleitor. Há poucos anos raríssimas eram as pessoas que se sujeitavam a vender o voto. E o faziam de forma disfarçada e cheia de culpas. Isso vem mudando de forma paulatina.

Em outros tempos a moeda de troca era botinas, dentaduras e pratos de comida. Este sistema de escambo nada ético evoluiu para pagamento de contas de luz, água, botijões de gás, remédios, consultas médicas e mudanças. São moedas que ainda valem na atualidade, mas com participação menor. Hoje o que se usa é simplesmente dinheiro e ainda combustível. Mais e mais eleitores estão perdendo a vergonha e cobrando pelo voto. Seja simplesmente em espécie ou ainda em forma de gasolina para usar material de propaganda de algum candidato em veículo de sua propriedade.

E este mesmo eleitor que vende o voto é o mesmo cidadão que aplaude a lei da Ficha Limpa e ainda faz discursos cobrando ética dos candidatos.  Na verdade ele é tão ficha suja como aqueles a quem condena de forma tão veemente. Embora o eleitor ficha suja seja uma minoria, como o são os candidatos, o fato de vir crescendo percentualmente o número de pessoas nesta situação é extremamente preocupante.

Quais podem ser as conseqüências disto para a legitimidade de nosso processo eleitoral e como combater este mal são perguntas para as quais precisamos discutir respostas. E de forma rápida para não afastarmos do processo político as pessoas bem intencionadas e ainda para que esta péssima conduta do eleitor não acabe se tornando algo corriqueiro e até mesmo tolerado e considerado normal. Urge retomarmos a discussão séria sobre a reforma política em nossa democracia.
 

Bookmark e Compartilhe